quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Passagens

"O tradicional lençol branco salpicado de vermelho vivo do sangue ainda fresco lá estava - parecia sempre o mesmo. Sob o tecido fino pigmentado estava o corpo prostrado, na posição de borco, qual actor estático num monólogo surdo de rua, assistido por inúmeros curiosos espectadores que, apesar da hora tardia, não dispensavam o habitual desejo absurdo de sofrer. Ou então, mais prosaica e perversamente, apenas para estarem próximos do sofrimento alheio. Talvez assim se sentissem menos infelizes na sua monótona e igualmente paupérrima existência. Alguém estava em pior situação e isso descomprimia, era um tónico. Ficavam sempre por ali, a mirar e a condenar de forma veemente o responsável por tamanha atrocidade. «Covardes, isto não se faz» ou «o tipo que fez isto merece o mesmo». Serão deste calibre as expressões de revolta mais usuais, como se cada um dos espontâneos juízes não fosse ele próprio capaz de, em circunstâncias apropriadas, levar à prática de actos idênticos."

Carlos Ademar in "Estranha forma de vida"

(Oficina do Livro)

Um comentário:

redonda disse...

Muito bem escrito. Fiquei curiosa sobre o autor e sobre o livro.