“Não há nada melhor do que uma campanha eleitoral para se perceber um pouco como as coisas se passam nas autarquias mais emblemáticas do País. Em Gondomar, Valentim Loureiro guardou uma parte da sua segunda-feira numa tarefa típica de um presidente de Câmara generoso em Portugal: distribuir convites para o concerto de Tony Carreira aos cidadãos que se dirigissem à autarquia. É claro que os cidadãos são também eleitores, a campanha eleitoral começou umas horas depois e o concerto, claro, foi pago pela autarquia – mas nada disso teve influência na ideia peregrina de Valentim.
O presidente-candidato justificou a sua experiência como bilheteiro porque várias pessoas na rua lhe perguntaram se arranjava entradas para o concerto e ele «sentiu-se na obrigação de o fazer». Alguns cidadãos, pouco habituados à honestidade rara de Valentim, ainda se dirigiram à sua sede de candidatura para recolher os presentes. Mas Valentim não mistura os cargos: oferece como presidente, recolhe como candidato. E por isso escolheu o salão nobre da Câmara para exercer as suas funções. Esteve lá à tarde e só às 16h30 fez uma pausa para lanchar. Regressou às 17h e continuou. Sempre de pé, atendeu todos os interessados da fila, ofereceu os convites e a quem só tinha coragem para pedir dois, dava quatro para que pudessem levar um casal amigo.
Para a Comissão Nacional de Eleições, este é seguramente um exemplo sem problemas.”
In Editorial da Sábado