terça-feira, 11 de novembro de 2008

Constatações LVI

Que a vida fosse um dia apenas

e não teria esta urgência em sorvê-la.

Que o amor fosse eterno

e já não pretenderia senti-lo.

Na idade dos porquês

Tenho 33 anos e a minha existência remete-me para um gigante ponto de interrogação.
(Curioso, aos 15 pensava que, por esta altura, seria um gigante ponto final; estaria casada, talvez, com filhos?, e usaria tailleurs clássicos que detesto com prazer. Seria, então, um grande e gordo ponto final. Ponto.)
Felizmente a sociedade evoluiu, eu cresci e, chegada aos intas, sinto-me um enorme ponto de interrogação.
Se é bom ou mau? É o que é, mas as grandes interrogações levam a grandes procuras; quem sabe se um dia destes não me transformo num grande ponto de exclamação!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

E porque as boas séries são para se ver

WILL & GRACE

Passagens

"Consideremos uma palavra que se refere a um objecto: guarda-chuva, por exemplo. Quando digo a palavra «guarda-chuva», vemos o objecto na mente. Vemos uma espécie de bengala, com varas de metal que se dobram e que formam uma armação para um tecido impermeável que, quando aberto, nos protege da chuva. Este último pormenor é importante. O guarda-chuva não é apenas uma coisa, é uma coisa que exerce uma função; por outras palavras, exprime a vontade do homem. Quando paramos para pensar nisto, verificamos que todos os objectos são semelhantes ao guarda-chuva, pois também servem uma função. Um lápis serve para escrever, um sapato para o calçarmos, um automóvel para o guiarmos. E o que eu pergunto agora é o seguinte: o que acontece quando uma coisa deixa de cumprir a sua função? Ainda é a mesma coisa ou transformou-se numa coisa diferente? Quando arrancamos o tecido de um guarda-chuva, o guarda-chuva ainda é um guarda-chuva? Abrimos a armação, pomo-la sobre a cabeça e saímos para a chuva e ficamos completamente encharcados. Será que ainda podemos chamar guarda-chuva àquele objecto? De uma maneira geral, é isso o que as pessoas fazem. Quando muito, dirão que o guarda-chuva está estragado. Mas para mim isto é um erro grave, é a causa de todos os nossos problemas. Como já não pode desempenhar a sua função, o guarda-chuva deixou de ser um guarda-chuva. Pode parecer-se ainda com um guarda-chuva, pode ter sido um guarda-chuva, mas agora transformou-se noutra coisa. No entanto, a palavra empregue é a mesma. Por conseguinte, já não consegue exprimir o que é o objecto. É imprecisa, é falsa, esconde a coisa que deveria revelar. E se nem sequer conseguimos nomear um objecto comum do dia-a-dia que temos nas mãos, como é que podemos esperar falar das coisas que verdadeiramente nos preocupam? Continuaremos sempre perdidos, a não ser que comecemos a incorporar a noção de mudança nas palavras que usamos."

Paul Auster in Cidade de Vidro - A Trilogia de Nova Iorque

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Auto-definição?

"Pede-me a paz
Dou-te o mundo
Louco, livre, assim sou eu
(Um pouco mais...)"


Pedro Abrunhosa

Porque nós merecemos!

Anda a passar nas televisões nacionais uma publicidade da L'óreal, se não erro, em que a menina que usa o novo baton da marca diz qualquer coisa como Eu não sou invencível, mas o meu baton é-o por mim. Ora, não percebo onde é que os cérebros brilhantes que tiveram esta ideia quiseram chegar mas parece-me ridículo, bastante até, acharem que as mulheres (a maioria, espero!) iriam gostar.
Para quê sermos invencíveis quando temos um baton da L'óreal? (A palavra invencível também é engraçada, e bem empregue, quais Batmans de saias!) Quem tem um baton daqueles tem tudo!
Portanto, no fundo, é gratificante saber que há pessoas que presumem que uma publicidade que reduz a Mulher a um baton pode chegar-lhe.
Enfim...

Quando eu for grande...

... quero ser Presidente de uma qualquer autarquia.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Hoje este blog vai adormecer assim...


Constatações LV

Apesar de por vezes me enervar com o discurso tão americano de Barack Obama - irrito-me profundamente com os God bless America e os inícios de frase sempre repetidos para dar um ênfase teatral((mente) triste) ao discurso -, espero que seja ele o próximo presidente dessa nação-em-queda-e-com-ela-todos-nós-que-deixará-de-ter-o-presidente-mais-estúpido-de-todos-os-tempos.
Àquela hora, naquele sítio, enquanto olhávamos o sol, com raios laranja a apagar-se no mar, adormecido, lembrei-me de te dizer:
-Somos uns privilegiados, não somos?
Olhaste-me para que eu completasse o raciocínio. Franziste a sobrancelha, quase como se fosses piscar o olho.
-O mar, o sol, esta vista linda que me enche o corpo de maresia e Primavera! E de paz, de paz...
Franziste-me a sobrancelha, quase como se fosses piscar o olho, em tom de aprovação.
Ficamos assim, calados e quietos, para mais de uma hora. Quando nos cansamos daquela sensação de que não se esteve cá olhei-te e piscaste-me o olho. Saímos daquele estado de pause e voltamos para as nossas vidas.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Passagens

"Nova Iorque era um espaço inesgotável, um labirinto de passos intermináveis; mas independentemente da distância que percorresse, independentemente de se ter familiarizado com as vizinhanças e ruas, ficava sempre com a sensação de estar perdido. Perdido, não apenas na cidade, mas também dentro de si. Sempre que dava um passeio, sentia-se como se se deixasse a si próprio para trás e, entregando-se ao movimento das ruas, reduzido a um olho que vê, conseguia escapar à obrigação de pensar, e isto mais do que qualquer outra coisa, trazia-lhe uma certa paz, um salutar vazio interior. O mundo estava no seu exterior, à sua volta, perante si, e a velocidade com que mudava impossibilitava-o de se prender por muito tempo a uma única coisa. O movimento era a essência, o acto de pôr um pé diante do outro e seguir a errância do seu próprio corpo. Ao caminhar sem destino, todos os lugares se tornavam semelhantes deixando de ter importância o sítio onde se encontrava. Nos seus melhores passeios, conseguia atingir o sentimento de que não estava em sítio algum. E isto, afinal, era tudo o que pedira às coisas: não estar em sítio algum. Nova Iorque era esse nenhures que havia construído à sua volta, e apercebeu-se de que não tencionava abandonar aquela cidade, nunca."

Paul Auster in Cidade de Vidro - A trilogia de Nova Iorque

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Da série: Não me canso de homens bonitos (XI)


CANSEI-ME

(pelo menos por agora)

O telemóvel toca. No ecrã vejo quem está a ligar.
- Olá!
- Deixa-me dizer-te uma coisa muito rapidamente e depois não voltamos a falar disso, ok?
- Ok...
- Tenho saudades tuas...
(...)

(Mantivemo-nos à conversa durante uns minutos; não voltamos a falar das saudades que sentimos. Mas esta declaração telegráfica bastou-me. Por vezes é tão simples fazerem-me feliz...)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Tudo o que perdemos"

Realização: Susanne Bier

Ano: 2007

Intérpretes: Halle Berry, Benicio Del Toro, David Duchovny

Como se consegue lidar com a morte de alguém que nos é demasiado próximo? Será este, talvez, o mote para este filme que aborda também a dependência da heroína e as várias facetas de cada ser humano.
Benicio Del Toro faz com que cada cena em que aparece se transforme numa pequenina obra-prima.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Constatações LIV

Não consigo disfarçar a irritação que sinto quando sou obrigada a lidar com pessoas eternamente descontentes, do género nunca-nada-está-bem.

domingo, 26 de outubro de 2008

Todos os dias me aventuro por descobertas e diferentes estados de espírito. Deambulo, perco-me às vezes, redescubro-me a cada novo passo.
Apercebo-me que a vida é engraçada, num instante nos troca o certo pelo incerto sem que tenhamos sequer tempo de nos apercebermos. Um acidente de carro, por exemplo, quase a acontecer. No instante imediato antes do choque vês o que vai suceder de seguida; o cérebro adianta-se três ou quatro segundos e antevês que vais bater. Mas, e pareceria impossível, não bato! Desvio o volante completamente, um, dois segundos antes de acontecer?, e o carro continua a patinar. Não sei se vou bater noutro lado qualquer, mas não no sítio que antevi, isso é certo. E de repente ele pára. O carro pára e não bati em nada nem ninguém. As pessoas assomadas às portas, à espera do choque, detêm-se uns segundos e seguem; consigo sentir o seu desapontamento no olhar porque nada de verdadeiramente emocionante aconteceu.
E o certo que era ter batido não o foi. Uma fracção de segundos. Uma fracção de segundos que iria mudar-me o humor, certamente, fazer baixar o saldo bancário (meeddooo), que iria levar-me a proferir um monte de palavrões impronunciáveis a maldizer a minha sorte acabou por não acontecer. Pelo menos da forma como já tinha por certa. Afinal, uma fracção de segundos que terminou com uma serenidade imprópria para o momento e uma sensação de gratidão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

E porque as boas séries são para se ver

(5ªs. à noite - RTP 1)



Perguntinha

Qual terá sido o momento exacto em que Cristiano Ronaldo passou a Cristiano Rônaldo, que não me apercebi?

O dia depois de hoje

Sem sabermos,
A cidade parou,
Uma noite,
Que afinal não chegou.
E tu como um livro,
No branco das páginas
E eu a ler-te nas lágrimas,
Que a manhã acordou.
Sem sabermos,
Inventámos a dor.
(...)
Sem saberes,
Escrevemos as ruas,
Uma sombra,
Desfazendo-se em duas.
E tu como um filme,
Na vertigem da morte
Eu aqui nesta sorte.

Pedro Abrunhosa in "Luz" (2007)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Hoje sinto-me assim...


(Se pudesse pegava em toda a tua dor

e transferia-a para mim...)