terça-feira, 15 de abril de 2008

Post irónico (2)

Precisava de uma casa, disse-me ela. Não perguntei porquê mas ela disse-me na mesma: que o marido lhe havia dito que já não podia vê-la.
Estranhei a confissão. Não tínhamos confiança para isso. Mas ela disse-me na mesma. E disse mais: já não aguentava aquela relação, lágrimas a conterem-se nos olhos, sentia-se cansada, os punhos cerrados, sem força e vontade de continuar.
Não mais voltamos a tocar no assunto.
Engravidou entretanto.
Está quase a ser mãe.

Post irónico (1)

Tomou posse como ministra da Defesa, na vizinha Espanha, Carme Chacón, licenciada em Direito, 37 anos, grávida de 7 meses.
Foi em Espanha, poderia ter sido em Portugal.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Porque a beleza não necessita de palavras

Ditos

«Devia existir um registo oficial e diário do que Menezes anda por aí a dizer. Já começa a ser difícil seguir o delírio político».

Vasco Pulido Valente

segunda-feira, 31 de março de 2008

La Vie en Rose

La Môme, no original, realizado por Olivier Dahan, e contando entre outros, com as interpretações de Emmanuelle Seigner, Gérard Depardieu e Marion Cotillard, este filme, ganhador de dois Óscares (melhor actriz e caracterização) deixou-me de lágrimas nos olhos e um nó no coração (ou na alma ou na garganta, ou em todos, não sei bem).
Edith Piaf era uma miúda de rua, que cresceu entre abandonos, sendo "salva" de uma existência ainda mais dura quando lhe descobrem o dom que tem na voz. Isso não a afastou, no entanto, da dependência do alcool e da morfina.
Pequena, dócil mas determinada, insegura mas também desvairada, foi uma mulher que viveu.
Marion Cotillard está magistral na pele da cantora. A ver e rever.

Jornalista - Que conseill pour la vie donnez vous a une femme?
Edith Piaf - Aimez.
Jornalista - Et a une jeune fille?
Edith Piaf - Aimez.
Jornalista - Et a un enfant?
Edith Piaf - Aimez.
- Arranja-me um cigarro? (Acompanhado de gesto de levar um cigarro à boca)
- Hum, hum. (Acompanhado de aceno afirmativo com a cabeça)
- É inglesa?
- Não.
Entrego o cigarro.
- Thank you.

domingo, 30 de março de 2008

E ainda sobre Portishead

Como é possível que, de um corpo tão franzino, saia uma voz tão colossal?

Poderoso, perfeito, Portishead



Casa cheia. Odor a erva. Expectativas ansiosas. Fazem-nos esperar e o nervosinho miúdo cresce dentro de mim. Quero-os no palco. O restante público também, o que se comprova pelas palmas, gritos, pelo burburinho que se sente entre aquelas paredes. E eis que, finalmente, eles estão lá. Uma banda que me acompanha desde há muito, embora nem sempre. Porque, se por vezes as músicas me trazem paz, outras há em que me deixam melancólica, soturna.Dependendo sempre do meu estado de espírito.
Todo o concerto é para mim uma viagem. Deixo-me levar pelas luzes, pelo embalar dos corpos que se movimentam no mesmo ritmo do meu. A voz encarrega-se do resto. Beth Gibbons de seu nome. Fecho muitas vezes os olhos e sinto-me a sorrir. Por vezes expresso-o, outras guardo-o egoisticamente em mim. Porque representam momentos só meus.
Foi lindo, a levar-me a pensar que eu tinha de lá estar. E estive. E adorei.

Constatações XLII

Sinto-me crescida quando, chegando a casa pelas seis e meia da manhã (hora nova), consigo desmaquilhar-me.

domingo, 16 de março de 2008

Devaneios

Ando amuada com o mundo. Não por muito tempo, sei-o, mas é assim que me sinto neste momento. Talvez já não amanhã, ontem sim. Ando amuada com o mundo. Saio para a rua e caminho sem norte, a ver se o vento fresco me faz despertar. Ao invés, embora não o queira, não consigo evitar observar as caras de Domingo. Parecem-me amuadas. Talvez porque o sol não brilhe e encha de cores os espaços entre os prédios, a relva não pareça verde, o céu não esteja azul. Ou, quem sabe, porque aqueles rostos já antecipam o dia de amanhã, as correrias para chegar ao emprego, a vida tão cara, tão igual, um dia após o outro, o simples acto de acordar, um dia após o outro, como chuva que cai, sempre monótona, cansativa.
Ando amuada com o mundo. Mas, reparando nas faces distorcidas, os lábios uma curva descendente, olhares vazios, mãos abandonadas ao corpo, consigo perceber que muita gente anda amuada. Com algo ou com alguém.
Se calhar, com o mundo também!

E porque gosto de acreditar que este blog é original

Não vou falar da nova proposta de lei
que irá limitar as áreas do corpo
onde podem ser colocados piercings.

quarta-feira, 12 de março de 2008

"Se tivesse uma câmara, Mário gostaria de fotografar os rostos das pessoas que, ao sábado, passeiam na cidade e daquelas que vivem na cidade para que os outros reparem nelas. Fotografá-las-ia decerto, se pudesse, se tal fosse possível, um instante antes e um instante depois de terem dado pela presença dele, caminhando na sua forma diversa de caminhar. Mas Mário não tem uma máquina fotográfica e, mesmo que tivesse, talvez não lhe fosse possível fazer o que deseja: as pessoas apercebem-se de que Mário se aproxima muito antes de ele estar suficientemente perto para fotografar os rostos delas. Só se Mário pudesse ser, ao mesmo tempo, ele próprio e um outro: um fotógrafo invisível que o precedesse. Isto, porém, é impossível. Apenas as palavras tornam possível tal efabulação. Imagine-se alguém ser dois! Isso não pode ser senão invenção de poetas, escritores e outros mentirosos." - Verdade ou Mentira?

"Presumo, pois, que o homem da bicicleta musical seja um velho feliz da felicidade das pequenas coisas e dos minúsculos gestos, dos subtis prazeres; um homem que se empenha em escandalizar suavemente o mundo com a música da felicidade dele. Não creio que seja viúvo, o homem. Prefiro imaginá-lo a envelhecer devagar ao lado de uma velhinha igualmente feliz, de cabeça nevada, que o recebe com um sorriso quando ele regressa das suas manhãs ciclísticas na Foz; com um sorriso e o perfume feliz de um naco de carne a acabar de crestar no forno. Ele sempre insiste para que ela saia também, para que compre uma bicicleta e venha pedalar com ele nas manhãs de domingo, para cantarolarem juntos, mas a felicidade dela reside em outras coisas: despertar com o cantar do galo, ver nascer o dia na janela da casa térrea onde moram os dois, tratar do limoeiro do quintal, colher um ramo de flores frescas com que há-de dar cor à mesa do almoço e principiar a preparar a refeição, descascando amorosamente pequenas batatas, temperando a carne com louro, alho e vinho branco. Tuso sem pressas e sem tempo, com os gestos que têm as velhas que são felizes e não correm para lado nenhum nem fogem de coisa alguma." - O homem da bicicleta musical


In "O profundo silêncio das manhãs de domingo",


de Manuel Jorge Marmelo



Um pequeno livro de contos
delicioso,
utópico,
sonhador,
irrealista até,
muito bonito.








quinta-feira, 6 de março de 2008


"Todo o sul da Europa se pode transformar

numa extensão do deserto do Saara."



Anthímio de Azevedo - Meteorologista

Na idade dos porquês

Olhava para a água quase parada no seu constante ir e vir. As luzes nela reflectidas davam-lhe um falso aspecto de claridade, que contrastava com o breu do céu. Fiquei ali a tentar descobrir as respostas às minhas perguntas quase infantis. Sem sucesso.
Queria ir para casa mas também não. Não me satisfazia a companhia mas também não desejava ser levada pela solidão. Não queria deitar-me na cama fria, abandonada, às vezes cruel. Analisei mentalmente o percurso percorrido. Qual seria o seu sentido? Para chegar onde, quando, porquê? Uma vez mais as respostas não me foram concedidas, a minha mente, a fervilhar, não acalmou, foi-me negada a serenidade da sabedoria.
Talvez precise caminhar mais...

Fait-divers

Há dias vi algo como um desfile de moda de cães. É-me difícil perceber o quão ridículas podem ser as pessoas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A não ver

INLAND EMPIRE

de David Lynch

(A não ser que se esteja com uma grande insónia
e não se queira recorrer a soporíferos)


Carlos Ademar é professor no Instituto Superior da Polícia Judiciária e Ciências Criminais tendo sido, durante anos, investigador criminal na Secção de Homicídios da PJ.
Terá sido certamente dessa experiência que lhe saíu este romance, sobre o mundo das drogas, mulheres, influências, armas. Poder-se-ia dizer que aconteceu no Porto, mas não, foi em Lisboa. Poder-se-ia dizer que as personagens foram inspiradas no gang da Ribeira. Não, o livro foi editado antes. Poder-se-ia dizer que se move à volta de Bruno Pidá. Também não, Alberto Lima é o seu nome.
Embora não seja um mimo literário, às vezes um pouco incongruente, levou-me a contactar com uma realidade para mim pouco conhecida, e a perceber que o caso do gang da Ribeira é a conhecida repetição de muitos casos que se passam por este país fora. Basta juntar os corpos grandes fermentados nos ginásios, alimentados a substâncias químicas, a procura de dinheiro fácil e poder, os jogos de influências, os esquemas bem sucedidos, os códigos de conduta, o demarcar do território, o matar se convier.
Eventualmente, se as coisas correram de feição aos líderes naturais destes grupos, não será difícil cada um de nós conhecer um deles, agora transformado em benemérito da sociedade.

Este blog tem andado assim:

A trabalhar

A trabalhar

A trabalhar

A trabalhar

A trabalhar

A trabalhar

E ainda:

A trabalhar

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Delírios

- Gostas?
- Por vezes... há dias que sim e dias que não...
- Não gostas às vezes? És homem, raios! E todo o homem que se preze gosta sempre! Mais até do que a mãe!
- Pois... talvez tenhas razão. Mas eu não gostava tanto assim da minha mãe. E ela já morreu.

A ressaca

Após um dia em que todos nos querem convencer que é lindo o amor, após as incontáveis músicas românticas de fazer chorar baba e ranho, dos corações colados em todas as montras, das rosas vermelhas, verdadeiras, de chocolate, plástico e até cartão, dos casais que fazem deste um dia muito bonito quando se esquecem disso no resto do ano, das serenatas dos dias modernos, dos poemas, das flores, do ar consumista de Natal, sabe muito bem voltar à normalidade. (Se possível, com muito amor.)