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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Acto de Contradição

cai, cai, cai,
a chuva
ai, ai, ai,
as rugas

penso logo
higiénico
um defeito
fotogénico

confessei
os meus pecados
receitaram-me
um acto de contradição

começaram os saldos
mesmo a tempo
agora só me falta
o aumento

os noivos
deram o nó
na
garganta

I.R.S.
Involuntariamente
Rui
Sousa


Autoria: Rui de Sousa

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O monstro

"Meneia o monstro a cauda, sedutor.
Seu rosto podia até estar em flor.

Meneia o monstro a cauda como um gato.
Seus olhos suplicam: quer regaço.

O monstro é bom, o monstro realiza
que em família é outra coisa a vida!

Que é da ferocidade anunciada?
Que é do salto? Que é da garra disparada?

O monstro já me pede para ir à escola,
«como os outros meninos». Esta agora!

O monstro vai à escola, apanha boas notas
e volta, alvoroçado, nas suas oito botas.

O monstro aculturado já se deixa montar,
mas ainda não moro naquele seu olhar.

Naquele seu olhar, que é tão meigo, eu já via
algo assim como uma vaga nostalgia.

Que deseja o monstro que não possa ter,
o monstro que eu mostro a quem o quiser ver?

O monstro protesta sua eterna amizade,
diz-se muito feliz, «se é que há felicidade!».

Mas a mim não me engana. Dou com ele a chorar.
«Que tens tu, ó, Castorim, que não queres confessar?»

«A bem dizer, padrinho, eu não tenho nada.
Sei agora que sou uma besta humanizada.

Mas que hei-de fazer com este meu aspecto?
Como hei-de viver com este mau aspecto?

Ó meu bom padrinho, eu só queria voltar
ao pedregal donde me foi tirar!».

Abraçados, chorámos, e eu, complacente,
deixo o monstro ir embora e para sempre!

Vossa boa atenção não quero fatigar.
Com a moral costumeira vou aqui terminar.

Nunca façam de um monstro a vossa criação,
que tarde ou cedo vai dar complicação."

Alexandre O'Neill (1973)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Coração acordeão

"Não o amor não tem asas


se tem asas são as mãos


que se enlaçam para a festa


maravilhosa do corpo


e entre elas o coração


coração acordeão"

Alexandre O'Neill